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:: UM DIA DE SENTIDOS EM SÃO PAULO ::

por andré itirê takano

Estar em São Paulo é uma experiência única até para aqueles que já estão habituados á visitas esporádicas á megalópole. Lá podemos ter uma noção mais ou menos realista (ou surrealista) do mundo.
Nos relógios das ruas que não deixam ninguém esquecer do tempo cronológico que urge a cada instante, algumas vezes nos avisam da qualidade do ar. Hoje está “Regular”, ou seja, “Respira-se, mas mal: sobrevive-se”.
Fiquei imaginando, então, quando o relógio, que não deixa ninguém esquecer de nada, marca: “Qualidade do ar: ruim”, ou “Cuidado camarada, aqui não se respira ar puro, e talvez uma longa exposição prejudique o seu sistema respiratório”. Será que isso quer dizer que quando o marcador diz ruim quer dizer que há pouco oxigênio disponível, ou há grande quantidade de partículas que tomam o lugar do oxigênio? Ou será que isso quer dizer que eu posso mor...
Bem essas perguntas só me vêm agora, depois de dias que lá estive, por que quando você está em São Paulo não há tempo para pensar. Como assim? Digo pensar, pensar mesmo, por que estando em São Paulo eu só funciono no automático.
Como pensar algo em São Paulo quando os seus olhos estão ardendo e entupidos de milhares de propagandas de todas as coisas que se vendem, desde objetos até pessoas e modelos delas, olhos cheios de carros, ônibus, caminhões á direita, á esquerda, á frente, atrás, na diagonal posterior direita, na diagonal posterior esquerda, na diagonal anterior direita, na diagonal anterior esquerda; praticamente cercado. Opa! Eu disse ‘praticamente’, me desculpe, devo dizer totalmente, por que quando você olha além dos tetos dos automóveis, quando você não está cercado de caminhões e ônibus que impedem tal visão, você vê...prédios, e atrás das frestas que estes permitem, você vê...mais prédios, casas, mais prédios, prédios menores, casas maiores. E quando só lhe resta uma saída, olhar para o céu, você descobre que há o teto de seu próprio carro. Se segura malandro, você agora é um refém da cidade.
Rápido! Seta para a direita! Rápido! Entre naquele espaço! Cuidado! Os carros! Pára!

Os grandes ciclopes vermelhos não permitem que você transite a seu bel prazer, só quando o pequeno ciclope verde te vê é que você pode seguir. O ciclope verde é bom, ele me deixa ir, mas é pequeno. Quando o vejo, praticamente o amo. Mas o grande ciclope vermelho, esse eu odeio, odeio o grande ciclope vermelho alto e seus irmãos que nos vigiam do topo de seus postes, subjugando o pequeno ciclope verde bom. O ciclope amarelo é um idiota, por que ele está abaixo do vermelho e gosta mais dele do que do verde.
O grande ciclope vermelho também tem filhos, que são seus representantes terrestres, têm as marcas de seu pai no teto, pequenos olhos vermelhos que giram, giram, giram lançando raios em todas as direções. Ás vezes a gente escuta os filhos do grande ciclope vermelho vindo de longe e passando rápido por entre a gente, que logo que escuta dá passagem, por que apesar de odiar o ciclope vermelho nós temos que respeita-lo. E a maior contradição é que a gente se sente bem quando ajuda os filhos do ciclope vermelho, por que quando isso acontece, a gente pode mudar de faixa rápido, subir na calçada, ou buzinar para o carro da frente sair da nossa frente: “Sai da frente ô imbecil, não vê que os filhos do onipotente querem passar?” Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Bi!Bi!Bi! Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Vroom! Vroom! Vroom! UÉ! UÉ! UÉ! Ué! Ué! Ué! ué! ué! uéééééé...
Mas deixemos o grande ciclope vermelho para lá, eu não gosto dele, ele é feio, bobo e chato!
Bem, estava falando do olhar, e acabei falando do ouvir, pois é. Além dos bi, bi, bi, dos vroom, vroom, vroom e ué, ué e ué, há também as músicas dos rádios dos carros que estão com a janelas abertas. Ainda bem que são poucas as janelas abertas, por que se todos estivessem de janelas abertas imagine o caos de músicas que se poderia ouvir nas ruas. Acho que é por isso que as pessoas andam com as janelas fechadas, para não contribuir com o já ensurdecedor barulho.
Mas a percepção humana é uma maravilha, a gente só escuta o que a atenção foca, por isso eu consigo conversar com as pessoas que estão dentro do carro comigo, mas pensando bem, eu as quero escutar para não escutar o pandemônio que existe do lado de fora da minha janela fechada. Mas o que dizia mesmo a amiga do meu lado? Acho que alguma coisa sobre o grande ciclope vermelho, talvez.
Os irmãos, olfato e paladar, já estão viciados da atmosfera de São Paulo, depois de algumas horas já nem se sente o horrível cheiro que exala o morto que insiste em continuar ali, com sua carcaça no meio das marginais. Por que não tiram logo esse cadáver dali? Aposto que nenhum prefeito ou prefeita pensou nisso, claro, eles já se acostumaram com o cheiro da carniça. Mas o mais engraçado é que não vi urubus comendo os restos daquela minhoca podre, será que não é bom para urubu comer?
O tato é o sentido menos prejudicado em São Paulo. Dentro do meu carro, de janelas fechadas, de ar condicionado ligado, eu só sinto o estofamento do meu banco e o toque do volante. Eu gosto do tato, por que eu escolho com o que quero utilizá-lo. Não é igual á visão, por que a visão é invadida o tempo todo, a audição o olfato e o paladar também. Queria dar um tilt nas regiões do meu córtex que recebem os estímulos visuais, auditivos, olfativos e do paladar, para poder me sentir um pouco melhor em São Paulo. Acho que vou procurar um neurocirurgião para ver o que ele pode fazer, afinal a ciência hoje está avançada. Porque se ele conseguir fazer isso vou poder morrer mais tranqüilo, assim pelo menos eu não poderei ver as favelas que me rodeiam, os rios mortos, o ar podre, as comidas com excesso de conservantes, essas coisas que deixam a gente triste, e por isso não quer ver.
Quero para mim só o tato, o meu tato, para fazer contato só com meu estofado de carro, meu volante, meu apartamento, meu sofá, minha cama, por que contato com as pessoas também é como andar em São Paulo, incompreensível, as fachadas imponentes que esconde os bairros miseráveis e os milhões de vivem na eterna quarta-feira de cinzas do Vinícius de Moraes, por que em São Paulo, pelas ruas, o que se vê, é uma gente que nem se vê, que muito menos se sorri, se beija e se abraça, e sai caminhando dançando e cantando cantigas de amor.
Olhos para quê?

 

 

 

 

 

 

 

 

desenvolvido por lado 1