Estar em São Paulo é
uma experiência única até para aqueles que
já estão habituados á visitas esporádicas
á megalópole. Lá podemos ter uma noção
mais ou menos realista (ou surrealista) do mundo.
Nos relógios das ruas que não deixam ninguém
esquecer do tempo cronológico que urge a cada instante,
algumas vezes nos avisam da qualidade do ar. Hoje está
“Regular”, ou seja, “Respira-se, mas mal: sobrevive-se”.
Fiquei imaginando, então, quando o relógio, que
não deixa ninguém esquecer de nada, marca: “Qualidade
do ar: ruim”, ou “Cuidado camarada, aqui não se respira
ar puro, e talvez uma longa exposição prejudique
o seu sistema respiratório”. Será que isso quer
dizer que quando o marcador diz ruim quer dizer que há
pouco oxigênio disponível, ou há grande quantidade
de partículas que tomam o lugar do oxigênio? Ou será
que isso quer dizer que eu posso mor...
Bem essas perguntas só me vêm agora, depois de dias
que lá estive, por que quando você está em
São Paulo não há tempo para pensar. Como
assim? Digo pensar, pensar mesmo, por que estando em São
Paulo eu só funciono no automático.
Como pensar algo em São Paulo quando os seus olhos estão
ardendo e entupidos de milhares de propagandas de todas as coisas
que se vendem, desde objetos até pessoas e modelos delas,
olhos cheios de carros, ônibus, caminhões á
direita, á esquerda, á frente, atrás, na
diagonal posterior direita, na diagonal posterior esquerda, na
diagonal anterior direita, na diagonal anterior esquerda; praticamente
cercado. Opa! Eu disse ‘praticamente’, me desculpe, devo dizer
totalmente, por que quando você olha além dos tetos
dos automóveis, quando você não está
cercado de caminhões e ônibus que impedem tal visão,
você vê...prédios, e atrás das frestas
que estes permitem, você vê...mais prédios,
casas, mais prédios, prédios menores, casas maiores.
E quando só lhe resta uma saída, olhar para o céu,
você descobre que há o teto de seu próprio
carro. Se segura malandro, você agora é um refém
da cidade.
Rápido! Seta para a direita! Rápido! Entre naquele
espaço! Cuidado! Os carros! Pára!

Os grandes ciclopes vermelhos não
permitem que você transite a seu bel prazer, só quando
o pequeno ciclope verde te vê é que você pode
seguir. O ciclope verde é bom, ele me deixa ir, mas é
pequeno. Quando o vejo, praticamente o amo. Mas o grande ciclope
vermelho, esse eu odeio, odeio o grande ciclope vermelho alto
e seus irmãos que nos vigiam do topo de seus postes, subjugando
o pequeno ciclope verde bom. O ciclope amarelo é um idiota,
por que ele está abaixo do vermelho e gosta mais dele do
que do verde.
O grande ciclope vermelho também tem filhos, que são
seus representantes terrestres, têm as marcas de seu pai
no teto, pequenos olhos vermelhos que giram, giram, giram lançando
raios em todas as direções. Ás vezes a gente
escuta os filhos do grande ciclope vermelho vindo de longe e passando
rápido por entre a gente, que logo que escuta dá
passagem, por que apesar de odiar o ciclope vermelho nós
temos que respeita-lo. E a maior contradição é
que a gente se sente bem quando ajuda os filhos do ciclope vermelho,
por que quando isso acontece, a gente pode mudar de faixa rápido,
subir na calçada, ou buzinar para o carro da frente sair
da nossa frente: “Sai da frente ô imbecil, não vê
que os filhos do onipotente querem passar?” Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Bi!Bi!Bi! Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Vroom! Vroom!
Vroom! UÉ! UÉ! UÉ! Ué! Ué!
Ué! ué! ué! uéééééé...
Mas deixemos o grande ciclope vermelho para lá, eu não
gosto dele, ele é feio, bobo e chato!
Bem, estava falando do olhar, e acabei falando do ouvir, pois
é. Além dos bi, bi, bi, dos vroom, vroom, vroom
e ué, ué e ué, há também as
músicas dos rádios dos carros que estão com
a janelas abertas. Ainda bem que são poucas as janelas
abertas, por que se todos estivessem de janelas abertas imagine
o caos de músicas que se poderia ouvir nas ruas. Acho que
é por isso que as pessoas andam com as janelas fechadas,
para não contribuir com o já ensurdecedor barulho.
Mas a percepção humana é uma maravilha, a
gente só escuta o que a atenção foca, por
isso eu consigo conversar com as pessoas que estão dentro
do carro comigo, mas pensando bem, eu as quero escutar para não
escutar o pandemônio que existe do lado de fora da minha
janela fechada. Mas o que dizia mesmo a amiga do meu lado? Acho
que alguma coisa sobre o grande ciclope vermelho, talvez.
Os irmãos, olfato e paladar, já estão viciados
da atmosfera de São Paulo, depois de algumas horas já
nem se sente o horrível cheiro que exala o morto que insiste
em continuar ali, com sua carcaça no meio das marginais.
Por que não tiram logo esse cadáver dali? Aposto
que nenhum prefeito ou prefeita pensou nisso, claro, eles já
se acostumaram com o cheiro da carniça. Mas o mais engraçado
é que não vi urubus comendo os restos daquela minhoca
podre, será que não é bom para urubu comer?
O tato é o sentido menos prejudicado em São Paulo.
Dentro do meu carro, de janelas fechadas, de ar condicionado ligado,
eu só sinto o estofamento do meu banco e o toque do volante.
Eu gosto do tato, por que eu escolho com o que quero utilizá-lo.
Não é igual á visão, por que a visão
é invadida o tempo todo, a audição o olfato
e o paladar também. Queria dar um tilt nas regiões
do meu córtex que recebem os estímulos visuais,
auditivos, olfativos e do paladar, para poder me sentir um pouco
melhor em São Paulo. Acho que vou procurar um neurocirurgião
para ver o que ele pode fazer, afinal a ciência hoje está
avançada. Porque se ele conseguir fazer isso vou poder
morrer mais tranqüilo, assim pelo menos eu não poderei
ver as favelas que me rodeiam, os rios mortos, o ar podre, as
comidas com excesso de conservantes, essas coisas que deixam a
gente triste, e por isso não quer ver.
Quero para mim só o tato, o meu tato, para fazer contato
só com meu estofado de carro, meu volante, meu apartamento,
meu sofá, minha cama, por que contato com as pessoas também
é como andar em São Paulo, incompreensível,
as fachadas imponentes que esconde os bairros miseráveis
e os milhões de vivem na eterna quarta-feira de cinzas
do Vinícius de Moraes, por que em São Paulo, pelas
ruas, o que se vê, é uma gente que nem se vê,
que muito menos se sorri, se beija e se abraça, e sai caminhando
dançando e cantando cantigas de amor.
Olhos para quê?